sábado, 10 de abril de 2010

À mestra Maria da Conceição Tavares, com carinho

Pescado do Opera Mundi

Eu pessoalmente já fui para a cadeia, sem nem saber por que, dado que sou apenas uma rebelde, pelo que escrevo, pelo que esbravejo... Mas a voces quero dizer o seguinte: já estou velha e cansada, mas não desisti. Não desiti! Eu acho que tem que estudar mais, aprofundar, aprofundar a análise, batalhar”.

Maria da C. Tavares, Jornal dos Economistas, Corecon RJ n181, p: 8 e 11


Maria da Conceição Tavares completa 80 anos no dia 24 de abril de 2010. Matemática, economista, intelectual com vasta formação histórica, filosófica e literária, professora, militante, deputada federal, torcedora fanática do Vasco, e admiradora da Portela, Maria da Conceição se transformou nos últimos 50 anos numa figura publica emblemática e referência decisiva dentro da vida cultural e intelectual brasileira.

Conceição nasceu em um povoado no interior de Portugal, perto de Anádia, na região de Aveiro. A família da mãe era católica e monarquista, mas o pai era anarquista e a divisão familiar, ideológica e política, marcou toda a sua infância, vivida em plena ditadura salazarista e durante a Guerra Civil espanhola.

Em 1953, Maria da Conceição se graduou em Matemática na Univesidade de Lisboa e pouco depois se mudou para o Brasil, aos 23 anos de idade, alguns meses antes do suicídio de Getúlio Vargas. Em vários depoimentos sobre sua vida, Conceição confessa que se deixou envolver imediatamente pelo “otimismo brasileiro da década de 1950”, e pela intelectualidade carioca, apaixonada pelo sonho de Brasília, do Plano de Metas, da Bossa Nova e do Desenvolvimentismo, cantado em verso e prosa nos salões intelectuais do Rio de Janeiro, liderados pela geração de Darcy Ribeiro, Mario Pedrosa e Aníbal Machado. Permaneceu ao lado dos nacional-desenvolvimentistas do ISEB e da geração de cientistas que começava a se reunir naquela época em torno da SBPC.

Em 1960, Maria da Conceição Tavares se formou em Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde foi aluna e assistente de Otavio Gouveia de Bulhões, ao mesmo tempo em que trabalhava com Inácio Rangel e com os economistas heterodoxos do BNDE. Pouco depois, já no escritório da CEPAL, no Rio de Janeiro, Conceição estabeleceu relações pessoais e intelectuais definitivas com Celso Furtado, Aníbal Pinto, e Raul Prebish. E foi assim, com um pé na ortodoxia neoclássica, o outro na heterodoxia estruturalista, e com uma forte formação marxista e keynesiana, que Maria da Conceição ingressou no debate econômico latino-americano, ao publicar, em 1963, um artigo clássico sobre o “auge e o declínio do processo de substituição de importações”. Nele ela explicava, de forma pioneira, os limites estruturais da estratégia de industrialização que era preconizada – naquele momento – por quase todos os economistas desenvolvimentistas.

A partir daí, e nas décadas seguintes, Conceição participou de quase todas as grandes polêmicas econômicas do Brasil e do continente: ainda nos anos 1960 ela criticou a “tese estagnacionista” de Celso Furtado e dos “teóricos da dependência”; nos anos 1970, denunciou os limites financeiros do modelo de crescimento adotado pelo governo militar brasileiro; no início dos anos 1980 participou intensamente da discussão sobre a origem e a natureza da crise econômica e da hiper-inflação no Brasil e durante a década de 1990 escreveu inúmeros artigos e livros criticando as políticas e reformas neoliberais associadas à ideologia da globalização.

Por fim, Maria da Conceição escreveu dois trabalhos de fôlego sobre o “movimento cíclico da economia brasileira”, que se transformaram em teses de doutoramento, em 1974, na Unicamp, e de Livre Docência na UFRJ, em 1977. Além disso, nas décadas de 1980 e 1990, Conceição participou do debate internacional sobre a “crise da hegemonia americana”, inaugurando o campo da economia política internacional no Brasil. Neste período, Conceição foi professora, sucessivamente, da UFRJ, FGV-RJ, CEPAL, Universidade do Chile, Universidade Nacional do Mexico e Universidade de Campinas, onde teve papel decisivo, na formação da sua escola de economia.

Depois do Golpe Militar de 1964, Conceição viveu no Chile, México e França, antes de voltar ao Rio de Janeiro e ser presa, em 1974. No Chile, Conceição participou da equipe econômica do governo de Salvador Allende e depois, já de volta ao Rio, militou na luta pela redemocratização brasileira dentro do PMDB, onde ajudou a formular o primeiro programa de governo, “Mudança e Esperança”, escrito em 1982. Uma década depois Conceição ingressou no Partido dos Trabalhadores e foi eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro em 1994.

Homenagem

Hoje, olhando em perspectiva, se pode ver com claridade o papel decisivo que suas ideias tiveram na formação do “pensamento econômico da Unicamp”, atualmente hegemônico dentro do segundo governo Lula e também, na inflexão tardia e “desenvolvimentista” do PT, partido que se formou no início dos anos 1980, sem nenhuma concepção econômica própria, e sob forte influência das idéias anti-estatistas, anti-nacionalistas e anti-getulistas de quase toda a intelectualidade paulista, liberal e marxista, desde os anos 1950.

Somando e subtraindo, Maria da Conceição Tavares, em toda a sua vida, foi sobretudo uma professora e uma humanista, que ensinou várias gerações – dentro e fora do Brasil – a pensarem o mundo com paixão, mas com absoluto rigor analítico; com coragem, mas com total lucidez; com espírito critico, mas com grande otimismo histórico; com rebeldia anárquica, mas com um profundo sentido de compromisso com o seu povo e com as angustias do seu tempo.

Além disto, em todos os lugares onde esteve, Conceição foi sempre uma mente provocadora e incapaz de acovardar-se ou de negar o seu próprio passado Poucos professores no mundo ao chegar aos 80 anos poderão assistir – como ela – uma eleição da importância da que ocorrerá no Brasil, em 2010, e saber que os dois principais candidatos à presidência da República foram seus alunos e se consideram, até hoje, seus discípulos. Parabéns e obrigado, Maria da Conceição.

*José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ

Um comentário:

zepp9 disse...

"Hoje, olhando em perspectiva, se pode ver com claridade o papel decisivo que suas ideias tiveram na formação do “pensamento econômico da Unicamp”, atualmente hegemônico dentro do segundo governo Lula e também, na inflexão tardia e “desenvolvimentista” do PT, partido que se formou no início dos anos 1980, sem nenhuma concepção econômica própria, e sob forte influência das idéias anti-estatistas, anti-nacionalistas e anti-getulistas de quase toda a intelectualidade paulista, liberal e marxista, desde os anos 1950".

PERFEITO!!!!!!

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