sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Bancários, Banqueiros e População


Por Breton

Na manhã de hoje, dia 16/10/2009, durante o programa Gaúcha Atualidade, o jornalista André Machado destilou uma série de críticas à greve na CAIXA. Buscando legitimar sua posição política, afirmou ser ex-funcionário da Caixa, grevista e sabedor do achatamento salarial sofrido pela categoria nos últimos anos. Entretanto, criticou categoricamente a manutenção do movimento paredista sob o argumento da perda de apoio da população, pelos prejuízos causados ao povo. Segundo ele, inclusive, a greve facilitaria um futuro processo de privatização da instituição, já tentado no governo Collor.

Nos cabe um comentário. Durante o programa ocorreu uma forte contradição entre os apresentadores. Ao mesmo tempo que argumentaram que a greve só dura nos Bancos públicos, pois os funcionários não sofrem ameaças de demissão, justificaram que nos bancos privados os empregados voltaram ao trabalho e nunca quiseram realmente aderir ao movimento. A greve teria sido forçada pelo sindicato, que fechou uma série de agências, e teria utilizado, segundo os apresentadores do programa, uma cola de cartazes que destrói com a fachada do banco. Um terrível ato de vandalismo, imagina só, usar uma cola para colar cartazes impedindo a direção dos bancos de abrir seu honesto negócio. De forma oportunista, esqueceram o selvagem assédio moral praticado pelos banqueiros para forçar os trabalhadores a voltar ao trabalho, ignorando seu legítimo e histórico direito de greve. Retrocedem saudosistamente a períodos históricos onde a lógica pura do Capital podia se reproduzir sem amarras.

O mais curioso é que os jornalistas se arvoram o direito de compreender a vontade geral dos trabalhadores, sem consulta-los e desconsiderando sua manifestação, seguindo uma legítima linha Rousseauniana, pois a instância legitima para definir essa questão é a assembleia da categoria, a qual decidiu e ratificou a paralisação.

Bom, voltemos a falar da CAIXA. Realmente os funcionários da instituição sofreram nos últimos 20 anos uma brutal diminuição do poder de compra dos seus salários, principalmente após as reformulações implementadas durante o governo FHC, que caminhavam no sentido de enxugamento para posterior privatização do Banco. Esquecer a participação do governo tucano no processo de sucateamento da instituição é um grave exercício de desonestidade intelectual.

No atual governo é indiscutível o fortalecimento do Banco como instituição, ampliando sua atuação em benefício do conjunto da população brasileira que precisa, e muito, de um Banco com as características da CAIXA. Contudo, os problemas históricos, qualitativos e quantitativos, relativos ao fortalecimento de seu quadro funcional vêm sendo enfrentados de forma muito tímida, quando muito. Essa combinação de ampliação da atuação do Banco, com conseqüente aumento considerável da carga de trabalho, e manutenção da desvalorização do corpo funcional, se torna explosiva. A pressão desumana da empresa sobre seus empregados reforçam uma das poucas alternativas de resistência, a greve. Deste modo, a greve dos funcionários é legitima e justa. Busca, ao contrário do propagado pela grande mídia, não apenas conquistas individuais, importantes, mas também o fortalecimento da CAIXA enquanto instituição pública, voltada aos interesses da maioria da população e ao desenvolvimento econômico e social do país.

Sobre o apoio da população vale notar o papel da mídia em reproduzir cotidianamente o senso comum, de acordo com seus interesses, superdimensionando a lógica imediata e os desconfortos momentâneos gerados à população, identificando como culpados os funcionários e a instituição pública. No entanto, nunca ressalta a perversidade do sistema ou o papel positivo da luta no fortalecimento de um sistema bancário que realmente beneficie a população e não meia dúzia de rentistas ou grande empresários. Ou seja, assume claramente seu papel de intelectual orgânico de uma classe, defendendo determinada visão social de mundo.

E aqui um adendo para não passar batido. Cada vez mais as instituições financeiras públicas começam a enfrentar as mesmas contradições vividas pela CAIXA hoje. Elas tem que cumprir seu papel público enquanto sofrem as mazelas da lógica financeira de mercado. Assim, os avanços conquistados não são consistentes, e além de estarem ameaçados constantemente, tem sempre uma contrapartida cruel. Portanto, é mister o movimento bancário aproveitar a janela histórica atual, onde a ânsia privatista está em um momento de recuo estratégico devido a importância do Estado na recuperação do convalescente capitalismo, para passar a assumir definitivamente, e como ponto fundamental, a bandeira da Estatização do Sistema Financeiro. Agora é a hora. Por Bancos públicos a serviço do desenvolvimento e não da especulação financeira ou de grandes grupos econômicos.

Não posso deixar de acrescer na contribuição do Breton o papel vital que os bancos públicos, e a CAIXA em particular, tiveram nos esforços que evitaram que o Brasil fosse tão afetado pela crise financeira mundial como os demais países. Caso o tucanato tivesse conseguido concretizar seu objetivo de privatizar a instituição, o Brasil ficaria sem ferramentas para irrigar a economia com crédito, gerir os programas sociais e os investimento públicos como o PAC, causando um prejuízo social e econômico gigantesco. Uma boa parte do bom momento econômico vivido pelo país se deve ao trabalho dos empregados da CAIXA.

2 comentários:

valeriobrl disse...

No vamos a esquecer os sonhos do irmão Elton, espero que un dia em Porto Alegre seja dedicado em memória desse martire do MST.
Eu no vou parando de sonhar em um pais + justo com:
-saúde
-educação
-trabalho
PARA TODOS!!
NO a criminalizar o MST
SIM a uma "verdadeira" reforma agraria.

Agenor disse...

O Brasil precisa da CAIXA. A mídia esconde da população as verdadeiras razões da greve para evitar que o povo a apoie forçando o governo a fazer mudanças estruturais no papel da instituição e na regulação de todo o sistema financeiro.

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