sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Verdades do Censo Agropecuário


Por Guilherme Cassel*

O Censo Agropecuário 2006, divulgado há algumas semanas pelo IBGE, esclarece muito sobre o meio rural brasileiro e joga luz sobre quem é quem no rural do Rio Grande do Sul. Há muito sabemos que a agropecuária tem valor significativo na economia gaúcha. Conforme estudo da Fipe/USP, 55% do PIB gaúcho vem deste setor. Mas também há muito tempo persiste entre nós a ideia de que essa é uma produção ?dos grandes?, daqueles que têm mais terra, mais dinheiro, mais acesso a novas tecnologias e que produzem grãos para a exportação..

Os dados do Censo mostram o quanto é errada essa percepção. Agora, sabemos que 86% dos estabelecimentos rurais gaúchos são da agricultura familiar (estabelecimentos com até quatro módulos fiscais, ou seja, no caso do RS, no máximo 160 hectares), que esses estabelecimentos ocupam 992.088 pessoas (81% das pessoas ocupadas no campo) e que ela participa com 54% do valor bruto da produção, mesmo ocupando apenas 31% da área agricultável. Com mais clareza: a agricultura familiar no RS é mais produtiva que a chamada agricultura ?dos grandes?. Se compararmos os indicadores de produtividade por hectare, isto fica ainda mais claro: R$ 1.462/ha/ano na agricultura familiar contra apenas R$ 547/ha/ano na agricultura de escala. Ou seja, no Rio Grande do Sul, a agricultura familiar é 67% mais produtiva. Outra informação importante: a agricultura familiar ocupa 16,1 pessoas para cada cem hectares, enquanto o outro modelo ocupa apenas 1,7 pessoa para os mesmos cem hectares.

Os dados do Censo mostram ainda que esta situação se repete em todo o país. No Brasil, a agricultura familiar é 89% mais produtiva que o modelo tradicional e, com apenas 24,3% da área agricultável, participa com 38% do valor bruto da produção.

Realçar esses dados não tem por objetivo alimentar uma falsa polêmica entre dois modelos, o que quase sempre resulta em conflitos estéreis, mas ajudar na construção de um outro olhar sobre o meio rural que temos. É preciso, é justo e é urgente que superemos, de uma vez por todas, o preconceito e a ideia de que só os grandes produzem com qualidade. A realidade é muito diferente e os dados do Censo mostram isto de forma clara e definitiva. A agricultura familiar, no Brasil e no Rio Grande do Sul, produz 70% de todos os alimentos que consumimos no dia a dia, se relaciona melhor com o meio ambiente, ocupa mais gente e é, sim, muito mais produtiva.

Para além de nossas impressões ou ideologias, depois do Censo podemos afirmar, sem medo de errar, que, para o Brasil, quanto mais agricultura familiar, melhor; quanto mais gente no campo, melhor. Ou, como canta o Paulinho da Viola, ?as coisas estão no mundo, eu que preciso aprender?.

*Ministro do Desenvolvimento Agrário

Esse artigo do Ministro Cassel deve ter calado fundo nas retrógradas lideranças do setor ruralista gaúcho.

Um comentário:

valeriobrl disse...

Obrigado pelo post.
No a criminalizar o MST !!

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