quinta-feira, 2 de abril de 2009

James Petras: "A esquerda não pode ser um mero salva-vidas do capitalismo"

"Acredito que o liberalismo está morto. Todo escritor capitalista afirma isso. Agora a questão é: quais são as alternativas para o liberalismo? E aqui dois teóricos de projeção estão em confronto, Keynes e Marx. Voltamos à seguinte posição: não é uma questão de intervenção do Estado em si, mas de intervenção do Estado em favor de qual projeto econômico?"

Confira a abaixo os principais trechos da entrevista com James Petras pescada
da página da agência de notícias e Jornal Brasil de Fato.
James Petras é professor emérito de Sociologia na Universidade Binghamton, em Nova York. É autor de mais de 62 livros publicados em 29 línguas, entre os quais citamos A mudança social na América Latina (2000), Globalização: O imperialismo do século XXI (2001), Sistema em crise (2003) e Multinacionais Trial (2006).

Obama progressista?

Percebo nos EUA um vácuo social, onde há acadêmicos críticos operando, mas numa posição muito limitada para poder apresentar uma alternativa política real. Eles simbolizam o que poderia vir a ser uma corrente de opinião da esquerda, se tivesse conexão com alguma luta em andamento. Tudo isso, hoje, se traduz no fato de que temos o presidente Obama realmente com base no fato da cor da sua pele. Ele tem sido chamado de progressista meramente por causa da sua retórica, ou retórica aparente. Em se analisando detidamente a sua retórica, nada ali sugere que ele represente qualquer tipo de política redistributiva, qualquer rompimento com as organizações financeiras especulativas de peso. Tudo aponta para enormes destinações de verbas para bancos insolventes – estou falando de mais de US$ 750 bilhões, e daí para cima. Só uma instituição financeira, a seguradora AIG, que está totalmente insolvente, isto é, cujas dívidas ultrapassam seus ativos, recebeu US$ 170 bilhões! A mídia mundial descreve isso como um governo progressista. O fato de Obama ser negro foi celebrado nos EUA como grande avanço social. Quero sublinhar por que isto é algo puramente simbólico: as taxas de desemprego dos afroamericanos é o dobro daquela dos trabalhadores brancos, em todas as categorias. Particularmente entre jovens negros, a taxa de desemprego está entre 40 e 50%. Isto é o triplo da taxa de desemprego de trabalhadores brancos. Mesmo assim, não há preocupação alguma do governo de Obama em sequer mencionar esse problema, muito menos em intervir de alguma maneira positiva. Isso mostra que ele está ignorando completamente a questão. Por outro lado, ocorrem referências constantes sobre a fidelidade de Obama para com Israel, seus vínculos com o povo israelense. Em outras palavras: o que temos aí é um presidente mais judeu do que afroamericano.

A crise do acúmulo

Uma coisa que deveríamos saber é que, como as matrizes nos países de origem estão em profunda crise, começaram a descapitalizar as suas subsidiárias nos outros países. A GM é um exemplo disso. A GM, a Ford, principalmente a Chrysler estão indo à falência. Elas não têm capacidade para superar suas perdas de 100 bilhões de dólares. Estão buscando mais ajuda do governo, e já receberam 14 bilhões. O colapso dessas multinacionais levantou a questão, em muitos países, se as economias nacionais e os governos estão dispostos a comprar essas fábricas e transformá-las em algum tipo de unidades de produção autônomas, ou se experimentarão os efeitos posteriores do colapso da indústria americana de transportes.
A economia americana desencadeou esta crise financeira, mas a crise mundial é uma crise de acúmulo excessivo de lucros mediante a exploração excessiva, das finanças, do crédito etc. Isto teve efeitos tremendos sobre o setor financeiro, na busca de lucros para manter as taxas originais do processo de acumulação. A crise financeira estourou primeiro nos EUA porque o colapso financeiro da América Latina, antes disso, tinha imposto certos controles sobre o sistema financeiro, o que limitou sua capacidade de se ligar aos ativos tóxicos, subprime, hipotecas e outros meios especulativos. Mesmo assim, na medida em que a crise se desloca das finanças para a produção e para o comércio, é inevitável a futura contração das economias na América Latina, mais tarde que nos EUA. Mas, em última análise, a depressão começará no final de 2009, senão antes, de forma igualmente profunda ou mais profunda.

Nacionalização para quem ou para qual finalidade?

O que estamos vendo e vamos ver é o crescimento da estatização. Mas não se trata de uma estatização progressista. Haverá um crescimento vasto do papel do Estado, direcionado para canalizar recursos públicos para salvar o empreendimento privado em colapso. Veremos, inclusive, uma espécie de nacionalização de empresas falidas. Essa nacionalização será muito importante, porque não terá um caráter progressista. Essencialmente, é o dinheiro público que irá assumir as dívidas privadas de corporações, a restauração da sua saúde econômica ou daquilo que eles consideram ser saúde econômica. Então, elas voltam para o capital privado assim que possam ter certeza de ter uma taxa de retorno. Veremos, portanto, um vasto crescimento da intervenção econômica pelo Estado, inclusive com a nacionalização e enorme gasto de impostos. Tudo isto está no manual tradicional dos esquerdistas considerados progressistas. Mas, se não especificarmos “nacionalização para quem ou para qual finalidade?”, perderemos de vista o fato de que nacionalizações são tentativas do Estado, no sentido de colocar um piso no colapso do capitalismo para que, em algum ponto no futuro, se restaurem as classes dominantes em sua posição hegemônica.

Precisamos encarar isto: esta é a maior depressão mundial desde a década de 30. Recém está começando. De cada seis americanos, um está desempregado ou com redução de carga horária. Esse número irá aumentar para 25% até o final do ano. Portanto, estamos numa situação em que o capitalismo, em resultado de suas próprias operações de mercado, está experimentando o seu pior colapso e sua maior taxa de falências em 70 anos. É aí que o Estado precisa desempenhar um papel essencial. Mas o papel do Estado (que estamos assistindo) não é o de canalizar dinheiro para empresas de propriedade pública visando empregos e salários para os trabalhadores, mas direcioná-lo para capitalistas que fracassaram no mercado competitivo.

Quais são as propostas da esquerda em vista deste cenário de catástrofe econômica, social e ecológica? Quais parâmetros deveriam orientar as ações de uma nova esquerda?

Uma das propostas é frear o desemprego. A esquerda não pode permitir que empresa alguma demita trabalhadores, transforme programas de estímulo de gastos de renda em investimentos sociais de grande porte, grandes investimentos produtivos, grandes projetos de emprego, grandes obras públicas pagando salários ao nível de sindicalizados. A meu ver, a finalidade principal não é colocar recursos nas mãos de capitalistas na esperança de que eles vão investir o dinheiro e gerar empregos. É o inverso: colocar dinheiro na renda e no emprego dos trabalhadores, independentemente dos fracassos do capitalismo. Devemos concentrar os programas no sentido de que governo seja proprietário, em grande escala e a longo prazo, do sistema produtivo e financeiro. Eles fracassaram, destruindo a produção e as finanças. Não podemos sustentar perdedores, fracassos. Precisamos começar da frente. Não podemos construir em cima de sistemas quebrados. A noção de botar um remendo aqui, estimular ali, está errada. Os trabalhadores não podem permitir desemprego maciço que irá derrubar os salários ainda mais, e levar à concentração de algumas poucas empresas que conseguem resistir à tempestade.

Reflexos no mundo do trabalho

Esta crise econômica, ao menos no primeiro momento, irá criar enorme excedente de mão-de-obra, e, caso não se encontre um mecanismo para integrar trabalhadores desempregados num movimento social, estes vão servir como meio de pressão para reduzir ainda mais os salários. Trabalhadores nunca são marginalizados. Eles são reduzidos em sua capacidade de barganha, têm perdas absolutas de renda, mas, do ponto de vista de reprodução do lucro, o tamanho do excedente de mão-de-obra está relacionado com o declínio de renda e de serviços sociais para os trabalhadores. Isso tem um papel decisivo. A marginalização da renda não significa a dissociação sistêmica dos trabalhadores em relação às operações do sistema capitalista. Acredito que o termo “exclusão social”, de certa forma, dá a entender que eles deixam de ser funcionais ou operacionais no sistema capitalista. Quanto maior for o excedente de mão-de-obra, maior será a competição por empregos entre trabalhadores; quanto maior a competição, mais baixos ficam os salários, mais opções terá o capital para negociar contratos.

Percebo que a acumulação de trabalhadores desempregados, sub-empregados e com emprego parcial, ao menos até se organizarem como classe ou subclasse reconhecível, é encorajada pelos empregadores, que buscam o emprego rotativo, contratos de seis meses que inibem qualquer tipo de solidariedade. Este tipo de exclusão social eu chamaria de rompimento de solidariedade. É um elemento crucial particularmente nesta época de depressão econômica, até que aconteça algo como na Argentina entre 1999 e 2002, quando grupos maciços de trabalhadores desempregados paralisaram os sistemas de transporte e as estradas de rodagem, comprometendo seriamente a realização de lucros pelo bloqueio do transporte de mercadorias entre mercados. A não ser que aconteça algo assim, os trabalhadores desempregados serão instrumento perfeito para se tentar impor a recuperação do capitalismo nas costas dos trabalhadores. É preciso aumentar a mão-de-obra excedente, a massa de desempregados, os sub-empregados, aqueles que enfrentam concorrência no portão das fábricas e escritórios. Cada vez mais, veremos o desenvolvimento do trabalho temporário, isto é, trabalhadores sem contratos fixos; isto será colocado como flexibilidade da mão-de-obra para facilitar o emprego. Mas em aspecto algum este será um resultado progressista, porque reverte décadas de organização social.

Que mudança o senhor visualiza no capitalismo?


O que está acontecendo são gigantescos gastos do governo para dívidas, os quais vão ser sustentados mediante aumento de impostos e cortes de programas sociais nos orçamentos para subsidiar a recuperação capitalista. Vejo um enorme retrocesso nas receitas e nos gastos do governo, ou colocando em outros termos, entre os ganhos corporativos e os salários corporativos. Veremos imenso crescimento do abismo à medida que avança a crise. Não tenho absolutamente dúvida alguma em relação ao fato de que um governo que assume dívidas enormes, nas quais o pagamento dos juros soma um quinto ou um sexto do orçamento federal, não terá espaço algum para encarar despesas sociais, para aumentar ou mesmo manter programas sociais. Penso que a recuperação capitalista significa que os trabalhadores pagam pelo prejuízo e desaparecimento do capitalismo, a não ser que você tenha um governo diferente, com compromissos sociais diferentes e compromissos de classe diferentes, que procure financiar a recuperação dos padrões de vida dos trabalhadores, que garanta o emprego dos trabalhadores e que intervenha nas fábricas que vão contra essa política – intervir no sentido de assumir, assumir o gerenciamento, a direção, o investimento e a política salarial. Não há dúvida alguma de que irão falar sobre “sacrifício igual” dos capitalistas e dos trabalhadores. Mas os capitalistas irão continuar donos das fábricas, sem quaisquer perdas, e os trabalhadores perderão seu salário. Então, qual é o sacrifício igual, quando um mantém os instrumentos básicos de produção e distribuição, e o outro sofre as consequências de redução de salário e dos benefícios sociais?

Em que sentido as transformações com a crise financeira, econômica e ecológica implicam inovação política?


Existe uma tremenda lacuna nessas questões. Existem dois fatores que precisamos reconhecer: as condições objetivas para mudança estão em seu momento mais favorável. Ou seja, nunca antes na história tanta gente reconheceu a questão do aquecimento global, da mudança climática. De modo semelhante ocorre o mesmo com o capitalismo: nunca antes vimos um colapso tão profundo dos sistemas financeiro e produtivo ao mesmo tempo no palco mundial, indo da Rússia à Patagônia, da Patagônia ao declínio do comércio na Ásia, ao desmoronamento das principais indústrias nos EUA. Falando objetivamente, o questionamento em relação ao capitalismo e ao meio ambiente está mais forte do que nunca. Os capitalistas nunca estiveram tão na defensiva e os defensores da poluição e do aquecimento global nunca estiveram tão fracos. Mesmo assim, não estamos enxergando mudança alguma, porque objetivamente também estamos num dos pontos mais fracos: os social-democratas se tornaram sócios do capitalismo na Europa; nos EUA, não há movimento algum, pois o movimento contra a guerra virtualmente desapareceu, assim como os movimentos pelos direitos civis e dos imigrantes desapareceram. Também não existe sindicato organizado nem partido algum que represente alternativas valiosas. Na Europa, talvez na França e na Itália ainda existam movimentos de sindicatos, mas eles não estão numa posição de exercer poder governamental. Há protestos maciços por toda a China, os quais podem se aprofundar. Por sua vez, na América Latina, há um histórico de lutas, um reavivamento em potencial, mas a Central Única dos Trabalhadores (CUT) é muito restringida e os outros sindicatos têm sido muito submissos, em vários casos incorporados no sistema, ao menos no regime de Lula. Com exceção da Venezuela e em grau mais reduzido Equador e Bolívia, não há sequer governos nacionalistas; só há nacionalismo setorial na Bolívia e no Equador, onde muitas multinacionais ainda ocupam posições estratégicas. Assim sendo, afirmo que, na América Latina, não estamos na mesma posição que ocupávamos no final dos anos 90, com os movimentos sociais em ascensão e governos neoliberais em declínio. Não vejo a centro-esquerda virando para a esquerda. Também não percebo a direita desaparecer. Ela, na verdade, está retornando na Argentina, e na Bolívia estão fazendo esforço para influenciar um terço do país.

Um grande paradoxo


Digamos o seguinte: temos um grande paradoxo – aprofunda-se o questionamento dos fracassos do capitalismo e dos destruidores do meio ambiente, ao mesmo tempo em que não há o surgimento de uma esquerda alternativa claramente articulada. Isto pode mudar. Não se pode especificar o ponto em que algo novo poderia aparecer, algum movimento social revitalizado e dinâmico: quando o desemprego for de 15% no Brasil, ou 18% ou 20% na Argentina, ou quando a pobreza aumentar ainda mais no México. Não estou excluindo isto, nem sou um pessimista estratégico, mas tento ser realista a este respeito: temos essa realidade dupla de grandes oportunidades e grandes fraquezas subjetivas.

O pensamento marxista ainda é pertinente na América Latina?


Esta pergunta foi respondida pelos próprios capitalistas. Vemos, na imprensa, que o interesse pelo marxismo levou a compras maciças dos livros de Karl Marx. Os jornais financeiros de maior circulação estão usando a mesma linguagem, falando de “colapso do capitalismo”, “fracassos do capitalismo”, da incapacidade operacional do sistema financeiro, em outras palavras: mesmo as publicações financeiras hoje reconhecem seu diagnóstico fracassado, seus erros de receita até agora, de modo que abriram espaço para um debate. O debate hoje não é mais sobre o Estado e o mercado, mas sobre o papel que o Estado deveria desempenhar ao substituir ou restaurar o mercado, contra aqueles que encaram o Estado como um instrumento para o poder social dos trabalhadores e para reorganizar a economia. Acredito que o liberalismo está morto. Todo escritor capitalista afirma isso. Agora a questão é: quais são as alternativas para o liberalismo? E aqui dois teóricos de projeção estão em confronto, Keynes e Marx. Voltamos à seguinte posição: não é uma questão de intervenção do Estado em si, mas de intervenção do Estado em favor de qual projeto econômico?

Lei a íntegra em www.brasildefato.com.br

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